E se tudo o que buscas está dentro de você,
seu deus, seu amor, seu mar, sua cor, sua solução
Nada há fora, só sombras como já dizia platão.
Ele só esqueceu de dizer que lá fora
está dentro de você
Outro dia li a bíblia e qual foi minha surpresa
Quando me deparei com a minha própria história,
Meu paraíso uterino é o jardim do éden divino
Onde nada preciso fazer, trabalhar ou comer
Onde há frutas ao meu dispor, onde só há amor
Depois, lançado no mundo, em meio a sangue e dor
Perdi, com o choro, minha felicidade incondicional
E ouvindo atento aos ruídos do mundo exterior
Criei meu próprio conceito de realidade universal
Com os olhos abertos, dei forma ao que via
Com a língua enrolada, dei nome ao que me existia
Com as mãos pequeninas, toquei minha verdade
Com as lágrimas, representei minhas vontades
(Estava criado meu mundo, em essência)
Depois da primeira fase, só precisava obedecer
Meus pais me diziam, preocupados, o que fazer
Este foi meu velho testamente, não havia opção
Era esperar o tempo passar e trabalhar meu coração
Quando menos esperava, vivi os novos livros
Foi me dado o tão esperado livre-arbítrio
Na adolescência, em meio a crises e revoluções,
rompi com meus deuses e desconstrui minhas ilusões
Já adulto, sofri o eterno dilema humano
Defender meus ideiais a qualquer custo
ou me entregar de pronto à um mundo insano,
sedento em me devorar
Crucificado ou não, ainda não cheguei ao meu final,
no momento em que meus anjos e demônios tomarão meu coração
para apresentar a conta crucial,
onde estará detalhado tudo o que fiz,
todo meu bem e todo meu mal
No segundo anterior ao cessar da minha respiração
assistirei impassível, passar toda a minha vida em essência
numa guerra interior inclemente de sangue, suor e paixão
para, finalmente, fechar os olhos para o único caminho possível
o fim definitivo da minha existência