segunda-feira, 31 de maio de 2010

Tranqueira

Quando a bola quicou na sua frente, ele perdeu a chance de marcar o gol. Depois, só recuou. Só foi se dar conta da real situação no momento em que estava de goleiro, parado, esperando que os outros lhe dessem um pouco de emoção. Mas nunca lhe davam. Ali ficou esperando uma lufada de coragem que o impelisse a abandonar o campo, ou que alguém cansasse e pedisse a posição. Nunca aconteceu. No meio do jogo, desejou seu fim. Desejou tanto que o tempo quase parou. Quando o fim se transformou em algo tangível, ele resolveu. Avisou a todos que ia fazer o que tinha vontade. Mas como aquilo tinha sido dito tantas vezes sem se transformar em realidade, ninguém deu bola. Entretanto, daquela vez era pra valer. Sem prefácio, começou a correr, atravessou o gramado, marcou o gol e saiu de campo. Nunca mais ninguém soube dele. Que ele está feliz é a única certeza daqueles que ficaram pra trás.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Diário de um desmemoriado (parte final)

Minha idéia era construir uma nova história e me afastar de uma que não era a minha. Depois que deixei o prédio onde morava quando tinha memória, andei muito. Da Tijuca fui ao Centro, do Centro ao Porto, do Porto à Niterói. Caminhando, devagar. Sem hora, sem relógio. Observado paisagens que, mesmo velhas, eram inteiramente novas. Descobrindo gostos, cheiros e redefinindo o que gostava e o que não.

Andando, visitei lugares desertos onde o silêncio me fazia falar sem parar com o objetivo de ocupar todo o ar a minha volta. 
 Me perdi em grandes metrópoles onde o ar estava permanentemente ocupado por vozes e sons que me mantinham calado. Fui e voltei. Conheci e me despedi. Me embriaguei e vomitei. Gargalhei e chorei. Fiz tudo o que me deu vontade e fui feliz.

Fui tão feliz que por semanas esquecia que um dia tinha sido outra pessoa. Com uma vontade inquebrável fiz todo o possível para manter aquela ante-vida bem distante. Desde o dia em que conheci meus pais e minha mulher, não voltei a vê-los ou a falar com eles. Me fazia bem saber que não havia volta. Pelo menos, assim eu imaginava.

Um dia, resolvi subir uma trilha atrás do barulho de água que prometia um bom banho. Subi e quando vi a cachoeira me desequilibrei e cai. Na queda, bati a cabeça e desmaiei. Como estava sozinho, não sei quanto tempo passei desacordado. Me pareceu uma noite, mas eu nunca saberei ao certo. O que sei é que depois daquela queda, meu mundo não seria o mesmo.

Lembrei quem eu era antes. Lembrei do meu primeiro encontro com minha mulher. Lembrei do nosso casamento, lembrei e senti como era e sou apaixonado por ela. Lembrei dos meus pais, do meu irmão. Lembrei daqueles meus amigos que me resgataram no centro da cidade. Lembrei de tudo e, magicamente, não esqueci o que tinha feito enquanto estava adormecido na minha amnésia.

Andei o mais rápido que pude e voltei pro meu antigo mundo, esperando um perdão provável, mas difícil. No caminho, longo, imaginei dormir ao lado da minha mulher novamente, desejei seu corpo, ansiei pela companhia dos meus pais, do meu irmão. Corri o mais que pude e, uma semana depois de ter deixado a cachoeira, cheguei ao Rio de Janeiro.

Fui ao meu antigo prédio e perguntei por minha mulher. O porteiro não a conhecia e não sabia nada sobre ela. Sentei e esperei a síndica que me informou que o apartamento havia sido vendido três anos antes. Meu deus, quatro anos se passaram, desde que meu passado desapareceu. Correndo, sempre correndo, fui à casa de meus pais e me avisou o dono da mercearia que eles haviam morrido dois anos antes.

Um desespero imenso tomou meu corpo e meu coração. Sentei no meio fio e chorei por muito tempo.
  Um mendigo passou e me ofereceu cigarros. Fumei meia dúzia. Um sentimento de derrota se alastrava e chegava ao meu estômago. A culpa pesava em meus ombros e com a cabeça entre os joelhos tentei pensar no que fazer.


Andando, cheguei ao trabalho do meu irmão. Ele, como imaginei, não trocou de emprego nestes quatro anos. Dei meu nome na portaria e esperei que o avisassem. Sentei e, depois de longos minutos, vi um homem velho, andando com dificuldade, saindo do elevador. Com o rosto torto, conseqüência de um derrame, meu irmão me abraçou e chorou como da primeira vez em que nos reencontramos.

Sentados em um bar, me contou que meus pais morreram de repente. Me ocultou o motivo, mas deixou transparecer que a tristeza os havia levado. Deu-me detalhes do momento em que o derrame destruiu parte do seu corpo e de como havia sido difícil segurar aquela barra sozinho. E disse, antes que eu perguntasse, que nada sabia sobre minha mulher.

Quando acabou o café, pedi que me desse alguns telefones e com eles consegui chegar ao endereço atual da minha mulher. Me despedi de meu irmão prometendo reencontrá-lo no dia seguinte para contar a minha história. O abracei com carinho e fui em direção ao meu passado.

Cheguei ao prédio indicado como sendo o de minha mulher. Encostei num poste e esperei alguns minutos, tentando controlar minha respiração. Precisei de quase meia hora. Ao final, respirei fundo e fui, deixando que minhas pernas andassem no automático. Não pedi que me anunciassem. Entrei no elevador e apertei o botão. Minhas mãos, apenas suor.

Parado na frente da porta, precisei de mais algum tempo. Toquei a campanhia. E muito tempo se passou. Quando a porta se abriu, lá estava ela, linda como sempre. Me olhou em choque. Ensaiou chorar. Mas antes que as lágrimas vencessem seus olhos, duas pequenas crianças a cercaram. Ela retomou o controle e pediu para que eu nunca mais voltasse. Não deu oportunidade para que minha boca se abrisse. Fechou a porta.

Desde então, aprendi que minha esposa havia se casado com um velho amigo meu e com ele teve dois filhos. Meus pais, já não existem mais. Meu irmão luta a cada segundo para esquecer seu futuro e eu, bom eu me mudei definitivamente para as ruas do centro do Rio. Ali, vivo com meus amigos mendigos. Ali tento esquecer, ali tento não ser.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Breve desabafo

Como ele nunca houve, nem perto. Admito que a culpa da separação foi minha. Eu era muito jovem, embrião de feminista e não entendia que algumas coisas não mudam. Acreditava numa relação de iguais, quando nunca somos iguais. Acreditava em centenas de coisas que hoje não lembro. Definitivamente, não eram importantes. Vivi como desejei, mas perdi meu maior desejo que era tê-lo ao meu lado.

A última vez que o vi foi no verão de 1932. Estávamos num parque. Não lembro o nome do lugar, mas me recordo bem da habilidade que ele tinha de me segurar pela cintura. Ao mesmo tempo em que usava a força de um animal, encaixava as mãos como um cavalheiro. Pressão e delicadeza, paixão e amor, juntos inseparáveis.

Ele, deitado na grama, me contava coisas que eu não sabia. Eu, de olhos fechados, recitava poemas impossíveis e assim víamos o tempo correr. Enquanto o sol descia de encontro a terra, eu imaginava uma vida inteira. Naquela tarde maravilhosa, ele me contou que era casado e que tinha uma filha pequena.

Fiquei louca. Tive vontade de arrancar os cabelos, de chorar, de fugir. Mas não fiz nada. Sentei-me e fitei o sol que já tinha ido embora. Não seria um simples homem que me faria perder o controle. Hoje teria feito tudo que não fiz. De nada me serviu o maldito controle. A idade me fez ver as coisas de outro ângulo, digamos assim.

Levantei e não olhei pra trás. Nunca mais o vi. Nunca mais o tive. E hoje com 78 anos de idade, me lembro de uma época de ouro e imagino. Fotos, não tenho. O que fica? Duas frases: não existem regras para nada, e orgulho, só serve da boca pra fora. Que eu aprenda para a próxima.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Diário de um desmemoriado (parte 2)

(continuação) Ainda tenso e angustiado pelo encontro com meu irmão, aceitei conhecer minha esposa. Toda a caravana de novos-velhos amigos se encaminhou para o metrô da Carioca. No caminho, mendigos - grandes companheiros - me saudaram e desejaram sorte. Toda aquela gente que me acompanhava falava ao mesmo tempo, me tocava, ria e tentava me fazer rir. E eu - incoscientemente - não ouvia nada. Palavras e mais palavras sem nenhum conteúdo emocional forte o bastante para me tirar da minha amnésia. Imagine você, ir a um encontro com pessoas que não conhece, o seu principal desejo será - provavelmente - ir embora. Eu só queria ir embora. Enquanto isso, a questão passou a ser quem pagaria minha passagem.

Infinitos 30 minutos se passaram até que desembarcássemos na Praça Saenz Peña. Segundo o que meu irmão me dizia e repetia sem parar, iria ser uma tarde fantástica, já que meus pais também estavam esperando para me encontrar. No caminho para o prédio - na General Roca - tentei encontrar o silêncio mas fui impedido pela fúria verborrágica dos "amigos" que me acompanhavam. Na dúvida e completamente constrangido pela minha falta de memória, escolhi o chão e com ele fui até chegar ao prédio onde conheceria o restante da minha família. Na portaria, discutiu-se por muito tempo como subiríamos já que só havia um elevador funcionando. Naquele momento, eu era a atração principal de um circo que eu não conhecia.

Fui o último a entrar no elevador. Antes da minha vez, seis viagens lotadas foram feitas ao quarto andar. Quando saí do elevador, eu era uma noiva. Dezenas de pessoas fizeram um corredor polonês de olhares para me ver passar e encontrar minha família. Respirei fundo, completamente alheio a toda aquela emoção. No final do túnel de rostos desconhecidos, um casal de senhores e uma mulher me esperavam. A tal mulher não se conteve e se jogou no meu pescoço, os senhores se limitaram a chorar em silêncio. Silêncio. Era tudo o que eu precisava e tudo o que eu não tinha.

A mulher agarrada ao meu pescoço era bonita e me olhava com amor. O casal de senhores tinham traços familiares, talvez por serem meus pais. Fiquei extremamente deslocado, suspenso no murmurinho que invadia a casa. Fui salvo por meu irmão que expulsou sob protestos as dezenas de desconhecidos que ainda formavam o corredor polonês. Eles queriam mais, eles queriam histórias, eles queriam alguma coisa que eu - definitivamente- não poderia lhes dar. No aconchego de um família que pele menos legalmente era minha, me limitei a escutar. Sabia que qualquer palavra mal colocada poderia causar danos graves àquelas pessoas que - em princípio - apenas me amavam.

Já sentado, sorvendo um café que me pareceu espetacular, fui intimado a contar o que tinha me acontecido. Contei das minhas caminhadas, contei dos meus amigos mendigos, dos velhinhos que não queriam dividir a comida, do relógio que não funcionava e me calei, pois não tinha mais nada pra contar. Aí começou a parte chata, a de escutar sobre a vida de um eu que não era eu. Mais vídeos, mais fotos, mais choro. Pedra. Era o que eu era. E isso me doia demais. Saber que a falta de emoção bombardeava o coração daquelas quatro pessoas que me cercavam. A conversa durou a tarde inteira e durante todo esse tempo, interjeições se tornaram minha especialidade. Como no momento em que recebi meu primeiro abraço, eu só queria ir embora.

Mas não aconteceu. Depois de me despedir de meus pais e irmão, fui com minha mulher para a nossa casa. Entrei no carro e escolhi a luz do painel como companheiro e com ela dividi o silêncio até o final da viagem. Dentro da casa, fiquei curioso. Eu ajudei a decorar isto? Era terrível, de extremo mau gosto. A mulher que me cercava começava a me dar naúseas. Tudo me dava vontade de fugir. Por dentro me sentia uma panela de pressão a ponto de estourar. Sentei. Respirei. Pedi uma toalha e entrei no banho. Quando saí, encontrei a mulher nua me esperando na cama.

Ela era bonita, formosa. Mas deus, eu não queria nada. Eu não a conhecia! Pedi a ela que por favor me deixasse descansar. A menina entendeu o recado e se vestiu. Doeu mais uma vez. Eu sabia que a estava magoando. Deitei e fui informado de que estava no lado errado da cama. Sutil vingança. Rolei. Tentei dormir, mas meu cérebro preferiu pensar em uma maneira de sair dali e o mais rápido possível. Assim que minha mulher adormeceu, levantei, me vesti e saí de casa. No corredor, vi fotos nossas. Pareceu que eu era realmente feliz. Mas aquela decoração, eu não faria absolutamente.

Finalmente consegui ir embora.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

História de Trocador

Uma história que me contaram por aí:

Flávio era um cara tímido. Muito tímido. Já tinha completado 19 anos e nunca tinha beijado na boca. Ao ver meninas, tremia dos pés a cabeça e, o mais importante, nunca tinha tido a oportunidade de se apaixonar. Num dia qualquer, resolveu entrar numa loja de CD. Entrou sem procurar nada e achou o que não esperava. Laura, a vendedora. Delicada, pequena, cabelos negros, três ou quatro piercings espalhados pela cara. Quando a viu, Flavio não conseguiu se mover, estagnado dentro do próprio coração. A menina que reconheceu nele algo que não identificava, se aproximou e perguntou se podia ajudar. O menino agarrou um CD qualquer e entregou à vendedora. Eram 15h.

A partir daquele momento, Flavio passou a visitar a loja diariamente e sempre às 15h. Comprou inúmeros CD's que nunca abriu e que ocupavam os armários e o chão de seu quarto. Foram três meses de visitas rápidas, intensas e mudas. Flávio esticava o braço com um CD pendurado em suas mãos e Laura fazia o seu trabalho. O máximo que Laura ouviu foram bons-dias balbuciados. Certo dia, Flavio não apareceu e a este dia se seguiram outros. No quarto dia em que a ausência se fe presente, Laura decidiu ir atrás de notícias.

Vasculhou os recibos de venda e descobriu o nome completo do rapaz. Na Internet, conseguiu o telefone e ligou. Boa tarde, por favor o Flávio? Quem gostaria? Laura, sou a vendedora da loja de CD's. Onde fica essa loja? Na rua do Almeida 23. Pois bem, em uma hora estou aí. Mas quem está falando? Marcia, mãe do Flávio. E o telefone foi desligado.

As 16h, Marcia apareceu com uma mala. Laura que já esperava a visita se adiantou e a convidou para sentar num canto mais reservado da loja de CD's. Quando Marcia começou a chorar, Laura sentiu que as coisas não iam bem. Entre soluços a desesperada mãe contou a Laura que o filho havia morrido atropelado quando voltava pra casa da loja de CD's.

Com os olhos embassados, empurrou a mala na direção de Laura que, chorando, reconheceu dentro dela os compactos que havia vendido. Todos completamente lacrados. Laura começou a chorar copiosamente e, um a um, foi rasgando os lacres e colocando sobre a mesa os bilhetes que ali escondia na esperança de que um dia Flavio correspondesse seu amor.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Diário de um desmemoriado (parte 1)

Perdi a memória. Tudo o que me lembro se resume em saber que sou e que me chamo Erico. O anel no meu anular esquerdo acusa um casamento e, portanto, uma mulher. Espero. Os dentes amarelados me avisam que sou fumante. O resto é história de transeunte. Me disseram que cai no meio da rua, bati a cabeça no meio fio e desmaiei. Acordei com uma dezena de pessoas tentando me fazer voltar à tona. Voltei, mas não reconheço a superfície.

Na confusão, me levaram o celular e a carteira, portanto não tenho idéia do que fazer ou para quem ligar. Levantei e fiquei andando, perdido, pela Cinelândia. Torcendo para que alguém me reconhecesse. Talvez estivesse estampado na minha cara o medo e a angústia já que fui abordado por um crente e parado por dois bandidos que não tinham nada para levar.

No final do primeiro dia, fiz fila na sopa servida sob os Arcos da Lapa. Ali conheci uma dezena de mendigos e alguns velhinhos. Os velhinhos reclamaram e tentaram me expulsar com medo que não tivesse comida para todos. Os mendigos me ofereceram cigarros e conversa. Aceitei um Hollywood amassado. Tentei tragar e quase morri. Se era, não sou mais fumante.

Assim passei três dias. Andando. Esperançoso de que alguém corresse na minha direção e me abraçasse sorridente. Percorri toda a Rio Branco uma centena de vezes. Devagar. Conheci muita gente. Enquanto ainda estava limpo, era ignorado por todos. Quando a poeira tomou conta da minha pele, entrei pro grupo dos mendigos. Com eles, encontrar comida não seria problema.

Tudo correu bem, dentro do possível, até o dia em fui abraçado. Quando já me acostumava àquela vida de rua, fui abraçado sem dó nem piedade por uma, creio, amiga. Enquanto ela falava, me beijava e me abraçava, percebi que o relógio do Largo da Carioca não funcionava. Ela – que se disse Marina – só foi perceber que eu não tinha a menor idéia de quem era ela, quando percebeu meus olhos fixos no tal relógio quebrado.

Me fez sentar. Entramos no Bar Luiz, no qual quase fui barrado, imagino por minhas roupas. Pedi uma salada de batata, informando que não podia pagar por elas. Neguei a cerveja. Enquanto comia com prazer, acompanhava de soslaio os movimentos nervosos de Marina com o telefone. Em cinco minutos, ilustres desconhecidos se juntavam a nós e me faziam muitas perguntas, alguns deles choravam. Tive vontade de sair correndo. Cheguei a levantar, mas tive que parar para ser apresentado ao meu irmão.

Admito que chorei. Não por um sentimento de reencontro tardio, mas por angústia. Simples e complexa angústia de quem não sente nada, mas que deveria. O cara – grande e barbudo – chorava como uma criança. Quando vi o garçom limpando as lágrimas, explodi. E foi um tal de chorar que quase me fez tentar fugir de novo. Vi fotos de carteira, escutei histórias minhas, mas nada me lembrou nada.

Para aquela mesma tarde, como me foi informado, iria ser apresentado a minha mulher. O pior: não tinha a menor idéia de quem era ela.

domingo, 2 de maio de 2010

Fragmento

- Esquece!

Disse Armando.

- Esquece e vai embora.

E a noite engoliu Nora. E a noite engoliu Nora.

Nora não disse nada que se tenha ouvido. Esses casos são mais sutis, não se fala tanto: se adivinha mais - ou se assume capaz.

No caminho até o desfecho, o que se costumava falar foi sendo obliquamente substituido pelo que se adivinhava. As palavras de pedra ou pena, recém saídas da boca, caíam logo ao chão ou voavam pela janela. No tímpano virgem do ouvinte, retombava solenemente sua própria palavra.

Logo não passava palavra alguma e assim permaneceram por longos 6 anos, 3 meses e 1 dia: 113 discussões, 8 grandes viagens, 3,5 traições e 632 trepadas no mais magnífico silêncio.

Nora foi embora. Armando dormiu chorando. Ambos com imensa saudade de tudo que foi escutado, mas nunca dito.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Diário de um senhor (página 40)

Enfim compreendi a teoria de Einstein. Demorei 96 anos para saber que o tempo pode passar mais devagar. Na verdade, passei a entender mais coisas do que gostaria. Uma delas é que as pessoas devem acreditar que velhice é contagiosa. Bom, na verdade, é e bastante. Até hoje nunca vi alguém que não envelhecesse.

Escrevo essas palavras, pois fiz uma descoberta incômoda e queria compartilhar. A última vez que recebi um carinho gratuito ou um cafuné demorado foi há dez anos, quando minha mulher de toda a vida morreu. Desde então transformei-me para os outros em um tipo de estátua. Na verdade, o era há muito tempo, mas só percebi quando passei a dormir sozinho.

Entendam que não é uma reclamação e sim uma constatação. Eu mesmo nunca devo ter feito carinho em meus avós ou pais depois que virei adulto. O máximo que lembro são abraços rápidos e talvez, com um pouco de sorte, um beijo nas bochechas ou nas mãos.

E assim como meus pais e avós perderam o tato com o mundo, eu também acabei transformado em ferro ou latão junto com milhares de senhores e senhoras que tomam os banquinhos das praças nos finais de tarde.

Interessante é que o carinho claramente existe. Os olhares passam amor e admiração, mas algo – que não entendo – impede o contato físico. Sinto muita falta do contato físico. Poderia apostar que meus cabelos brancos nunca foram afagados. Triste, para mim, evidentemente.

A conclusão a que chego só pode ser uma. Como eu na juventude tinha medo de envelhecer e me afastava fisicamente dos mais velhos, os mais novos de hoje sentem o mesmo e evitam a mim. Queria dizer que não adianta. Nada adianta. A velhice chega, mas ela pode vir com ou sem cafuné.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Curiosidade Mórbida

Procurando espaço para respirar entre as paredes cheias de musgo, tento encontrar o fim deste corredor. Por pura curiosidade suicida entrei na fresta que se escondia atrás de arbustos no meio da floresta. Uma placa dizia, Antes de entrar, deixe aqui sua sombra. E assim o fiz sem saber muito quanto vale uma sombra.

Começo a caminhada, a aventura se faz a melhor do mundo. Meu cérebro não funciona e a adrenalina comanda meu corpo. Alguns metros adiante, percebo que sangue escorre da minha cabeça, mas não sinto nenhuma dor ou incômodo. Me mordo, me aperto e, enfim, descubro para que servem as sombras.

Quando meu relógio, que nunca uso, bate 12h, descubro que há vinte minutos me enfiei neste buraco. Ao perceber as horas, vejo também que meus braços estão cobertos de insetos, que minha cara é lama pura e imagino que não me reconheceria no espelho com os tantos cortes sentidos na pele.

O nervosismo substitui a adrenalina com a velocidade da luz. Os insetos que antes não via, agora sinto. Se movendo em todas as direções num baile de antenas. A lama que não existia chega aos meus joelhos e cobre minhas mãos. Os cortes ardem e eu percebo que há luz no fim o túnel.

A luz é tênue, mas consegue iluminar o caminho. Na verdade sinto a luz, mas não posso identificar de onde vem. Meus olhos lacrimejam sem parar e a visão está completamente embaçada. Sinto minha garganta, seca. Minha boca cheia de terra e larvas. Meu nariz que não cheira mais nada.

Teias de aranha me aquecem quando não há frio ou calor. Só há anestesia. Ratos se aninham em minhas pernas, como gatos dizendo bom dia. Insetos fazem o que se espera deles, mordem. Mordem muito. Aranhas brincam com meus lábios e eu não sinto, simplesmente. A luz desaparece.

Por duas vezes tropeço. No mesmo lugar. Me afundo na tal lama que chegava aos meus joelhos. A terra molhada misturada a objetos irreconhecíveis acalmam a dor que não sinto, mas vejo. O couro cabeludo também sangra e percebo que meus tufos de cabelo se juntam a outro tufos mais antigos presos no teto baixo cheio de espinhos.

O nervosismo, segundo a chegar, dá lugar ao comodismo, triste e último. A cabeça não existe e o corpo se move por vontade própria obedecendo a um instinto antigo de sobrevivência. Nada mais resta, só a respiração dificultada pelos insetos insistentes e o sangue que escorre, incomodando meus olhos e fazendo-me piscar.

Acordo. Parece que desmaiei. Tenho três ratos no colo que tentam alcançar uma cobra enrolada no meu pescoço. Meus olhos quase não se abrem e ainda assim, sei que são ratos e sei que é uma cobra. Meu rosto está devastado, minha língua imobilizada. Fecho os olhos e tento ver o mar, mas sinto a luz e, pela última vez, encaro minha sombra.

Na escuridão que domina a mais linda das florestas
Está a resposta
No coração que mente, rouba, mata e deseja o mal
Está a resposta

No grito que destrói o canto de todas as aves
Está a resposta
No fedor, no feio, no ultrajante vômito do mundo
Está a resposta

Porque a resposta está onde menos esperamos
A resposta nos aguarda onde nunca exploramos
Quando viramos a cara, nos escondemos das respostas
Quando corremos do medo, perdemos a aposta.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Enxurrada de Silêncio

Há sete dias ele parou de falar. Seus olhos não mostravam agonia nem medo. Amigos e familiares reunidos na sala ou no bar da esquina comentavam o acontecido. Ninguém entendia. Não houve nenhum acidente. Brigou com a ex-namorada, mas era comum, natural. Seus pais começaram a pensar que fosse um capricho vaidoso. Sua avó rezava e pedia a são benedito que o fizesse voltar a falar. Nada adiantava. Sua boca não se abria, nem para gemidos. Seu irmão num ato desesperado espetou-o com um alfinete. Cara de dor, mãos contraídas, mas nenhum som. Outra: não revidou. Olhou para o irmão com expressão rasgada de pena, teatral. Tinha-se levantado com o susto, mas sentou-se calmo, coçando levemente a coxa furada. Para os que assistiam não existia outra saída que não esperar.

Foram sete dias de tentativas desesperadas, uma eternidade de silêncio inconsolável e de muito barulho. Mais de cinqüenta pessoas passaram pela porta daquele quarto. Toda a pequena cidade se mobilizou. Incontáveis beijos e abraços, verdadeiros ou não, tocaram um corpo estático, onde só a expressão se alterava.

Lá pelas duas da manhã do sétimo dia, os irmãos que voltavam da bebedeira encontraram o dono do silêncio sentado no sofá. Assustados já que ele raras vezes tinha ficado de pé nesta última semana – começaram a gritar, soando o alarme. Em exatamente dois minutos aquele que não abria a boca estava cercado de mãos, beijos e olhares de interrogação.

Quando o silêncio mais uma vez tomou conta daquela família e fez por um milésimo de segundo que todos os presentes ficassem calados, a boca que havia se mantido em silêncio se abriu. Emitiu um silvo forte e agudo que levou as mãos de todos às orelhas. Um silêncio, mais profundo, jamais sentido nem pela avó que tinha mais de oitenta, seguiu o ensurdecedor barulho. Era uma pausa necessária, mostrando que algo iria vir e não seria uma coisa qualquer.

Iniciou-se então uma narrativa, com ritmo rápido quase incompreensível. Com silabas atropeladas, toda a história do mundo foi contada desde sua criação até o seu fim, não tão próximo, mas já com data marcada. O mundo foi desconstruído e reconstruído, todos os conceitos foram explicados e as grandes perguntas foram respondidas.

Depois de uma enxurrada de palavras e revelações, o silêncio voltou como uma corrente, invadindo com violência o corpo daquele que ousou falar tudo aquilo. Rompeu seu coração, rasgou seu pulmão, fazendo o sangue encher sua boca. Seu corpo caiu inerte, desta vez sem nenhuma expressão, e ficou no chão sozinho na solidão dos recém mortos.

Sua família não ousou nenhum movimento por muito tempo, talvez três dias. Ficaram estáticos sem se olharem, talvez por vergonha de suas vidas sem propósito, talvez esperando que alguém se abaixasse para confirmar a morte do garoto, que com tanto sangue e nenhum movimento não precisava ser confirmada. As campainhas e os telefones insistentes não interferiram naquele interminável momento de reflexão.

Por muito tempo, nada se soube daquela estranha família que um dia experimentou o silêncio. O que restava eram lendas que percorriam a cidade. O jardineiro da paróquia disse que o pai foi morar numa ilha deserta com a mãe reatando um relacionamento que já estava enterrado. O dono do açougue afirma que o irmão mais velho morreu na Antártica defendendo as focas dos caçadores. Os meninos do porto dizem ter ouvidos histórias de uma avó que vive de contar histórias, e a TV, outro dia, mostrou que o irmão mais novo estava correndo o mundo literalmente. As câmeras pegaram o menino correndo na Nigéria, décimo quinto país que visitava. Atrás dele, uma multidão sorridente e sem roupas seguia seus passos.

domingo, 25 de abril de 2010

Amor atrasado

Era a segunda ou terceira vez que te via. Não tinha conseguido me aproximar ainda. O máximo que tinha conseguido eram respostas monossilábicas que nada adiantavam e que nada diminuiam minha agonia. Você também não ajudava nos meus planos. Sempre concentrada nos seus afazeres, pouco me dava atenção. Quando me olhava, usava um certo olhar de desdém que evidentemente me faziam menor diante de tudo. Tentei cartas, tentei e-mail, você nunca me respondia. Falei com suas amigas. Cheguei a falar com seus pais, ou melhor, só o seu pai que, apesar de muito cordial, me pareceu bastante assustador. Nada adiantava, nada melhorava minha condição diante de seus olhos. Neste meio tempo arrumei um emprego melhor e pude me vestir melhor, fazer exercícios físicos, enfim cuidar-me melhor. Passaram-se três meses. Estava dez quilos mais forte, entenda bem: forte, não gordo. Só tinha roupas de qualidade que me davam um ar sofisticado. Usava lentes no lugar daqueles óculos pesados. Passava gel no cabelo e tinha pagado a segunda parcela do meu carrinho zero. Nem assim você me dava atenção. Até que um dia apareci morto dentro do banheiro da faculdade. Uma faca de cozinha daquelas bem vagabundas estava enterrada no terceiro buraco aberto no meu peito. Pelo jeito não gritei, talvez surpreso, provavelmente feliz. As facadas vinham acompanhadas de sussurros: te amo, te amo, te amo.

Corrida

Ele corria mais do que ninguém. Corria para acordar. Escovava os dentes ao mesmo tempo em que colocava as meias. Corria para ir ao trabalho. Perdeu as contas de quantas pessoas atropelou em seu caminho, de quantos bons dias deixou no ar e de quantos sorrisos deixou de perceber. Corria para fazer suas tarefas. Na verdade nem conseguia lembrar o que tinha feito no dia anterior. Corria para comer. Engasgou incontaveis vezes e foi salvo outras tantas por garçons e fregueses atentos que impediram uma morte prematura consequência de um caroço de azeitona. Corria para conhecer gente. Sua primeira namorada se apresentou quanto terminaram sua primeira noite de sexo, que durou, segundo o relógio dela, dois minutos. E corria também para se despedir. No caso da primeira namorada, esqueceu de dizer o próprio nome e não tinha a menor idéia do nome dela. Corria de si mesmo e não lembrava de como era seu rosto. Espelhos não tinha em casa. Correu tanto que chegou na frente, completamente sozinho. Quando parou, o fez aos 75 anos e não por vontade própria, mas obrigado por uma artrite que o impedia de levantar da cadeira. No primeiro dia que sentou em sua poltrona com um atestado médico nas mãos descobriu que não tinha agenda telefonica, percebeu que não conhecia ninguém, constatou que não havia mais um porquê. Tentou levantar e caiu de joelhos diante do aparelho de TV preto e branco. Morreu vagarosamente com pontadas cadenciadas que atingiam seu coração de hora em hora. Morreu lentamente achando que a morte também iria ser rápida.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Indias do Além Mar

No dia 26 de abril de 2015 eu morri. Mas foi uma morte espetacular. Me lembro bem do momento, dos movimentos, das faces, das contrações. Encontrei o meu fim, dando de cara com meu começo; já explico.

Era uma quarta-feira e como faço todas as quartas, terminei meu expediente e fui tomar minha cerveja no bar do Chico que fica na esquina lá de casa. O botequim era como meu segundo lar. Ali, entrava tirando a gravata, desabotoando a camisa, xingando um e outro carinhosamente como quem diz boa tarde.

Como sempre, sentei-me bem em frente aos risoles de camarão e que fique claro: os de camarão. (Em frente aos risoles de palmito - identificados por uma bolinha de massa por cima - sentava-se o Freitas, que só bebia água). Bom, em frente aos risoles de camarão, pedi uma cerveja, pão velho, azeite e sal e com esses ingredientes as horas passavam rápido; comendo, bebendo e dando pitaco nas conversas dos outros.

Tudo ia bem naquela dia, o calor dava lugar a uma brisa leve, o Fluminense ganhava de 2 a 0 do Cabofriense e minha mulher não tinha me ligado ainda. Entre pensamentos soltos despertei do maravilhoso mundo dos altos com uma vontade espetacular de ir ao banheiro. Levantei do banquinho, tropecei no cachorro da dona Clotilde, cumprimentei um simpático bêbado, fiz careta para o seu Joaquim e seu charuto e entrei no cubículo, descarreguei meus excessos e voltei por onde tinha ido. Enquanto fechava a porta do banheiro a vi.

Minha mulher. Ela estava linda, como quando a conheci dez anos atrás. Estava com o rosto limpo, sem maquiagem, o que realçava seus traços indígenas; seus cabelos negros estavam soltos, selvagens. Usava um vestido amarelo dois dedos abaixo da dobra da bunda e uma sandália de palha, o que tornava o quadro uma pintura naturalista sem igual.O tempo parou e naqueles minutos, ou melhor, segundos, a vi me abraçando quando nos conhecemos, lembrei dos beijos enlouquecidos, dos apertos endiabrados, do tesão incontrolável de um passado enterrado.

E me lembrei disso tudo pq nela vi não só a beleza natural que sempre foi uma marca registrada. Além de todos os traços perfeitos, o corpo escultural, a luz sobrenaturtal, havia nela raiva; um desespero que vinha do fundo do estômago e que transfigurava toda aquela beleza em força pura, em energia cósmica, em pressão, em vibrações que por pouco não derrubaram os copos e garrafas que se equilibravam nas estantes do Chico.

Talvez não tenha desejado entender o que estava passando. A imagem daquela mulher perfeita, a energia genuinamente original, o peso daqueles olhos me puseram em um estado de recepção, de frigidez completa. Nenhum músculo meu se mexeu, fiquei parado, com as mãos baixas, respiração rápida e olhos fixos em uma lembrança que voltava, em uma memória que se tornava um momento presente de novo. Era como se estivesse em alfa, mas consciente e bastante acordado.

Enquanto percebia minha condição de estátua, ela avançou. E enquanto avançava, percebi que os risoles de camarão e de palmito tinham trocado de lugar, que minha cerveja era água e que o Freitas era uma mulher que só bebia cana, que o cachorro da dona Clotilde era um senhor de nome Evandro, que o simpático bêbado era meu filho, que seu Joaquim na verdade era um fiscal do ministério da saúde que analisava os charutos vendidos na casa. Quando me dei conta de tudo isso, o que para mim foi um terrível esforço, senti a pontada.

A faca entrou e estraçalhou meu velho estômago e subiu e rasgou e cortou a bisnaga com azeite e sal que não tinha mastigado direito. Senti a outra mão em minhas costas, apertando meu corpo contra a lâmina, senti o respirar nervoso no meu pescoço, senti o cheiro daqueles cabelos negros pelo quais me apaixonei dez anos atrás. Senti um monte de coisas que não podem ser descritas por palavras. Senti pânico, senti leveza, senti horror, senti uma tranquilidade imensa e senti saudades. Saudades do que havia esquecido. Como pude esquecer isso? Como?

Entre respirações aceleradas, batimentos cardíacos a ponto de desandar, suores, gritos, cabelos, peles, cheiros, encontrei os olhos dela e com os olhos vi que ela me perdoava. Entendi que naquele ato trágico não havia vingança, não havia ódio e sim amor, o mais puro amor que pode existir, o amor que mata. Me fixei em seus olhos esperando o momento em que meu coração entraria em colapso, me fixei em seu corpo, em seu rosto e vi a morte, sensual como uma dançarina árabe, me recolhendo, me apertando, me usando, me cuspindo, me acariciando.

E ali, naquele microssegundo, cometi meu último ato de traição. A morte beijei, agarrei, rasguei, invadi e com ela vi estrelas. Gozei centenas de vezes e suei litros de amor e gritei palavras sujas em línguas que nunca conheci. Ali ganhei minha liberdade, ali decidi de uma vez por todas abandonar a índia por quem havia me apaixonado. Ali fizemos uma troca, ela me apresentou a minha amante definitiva e eu a presenteei com o meu desaparecimento.

Feliz e cansado, acendi um cigarro e passei a mão na cabeça da índia que ria sobre meu corpo.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Aniversário

Há um ano não se escreve neste blog.

O que se lê desde então é o silêncio, o som da barba crescendo há um ano.

(In)felizmente, outros planos foram priorizados neste ano que passou.

Celebramos portanto, neste aniversário, tudo aquilo que não compartilhamos com nossos leitores imaginários.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Sonho 436

Quatro e quinze da manha. Consegui abrir a porta que há tanto tempo estava trancada. Giro a maçaneta e entro com cuidado. Dentro, a escuridão aos poucos dá lugar a uma luz fraca porém constante, que vem de lugar nenhum. O chão escorrega e está coberto de musgo e lixo. O cheiro se alterna entre o mais fino perfume de uma rosa e o fedor mais pútrido de um esgoto qualquer.

As paredes estão cobertas por gaiolas. amontoadas desde o chão até o teto. A cada piscada de olho as jaulas de multiplicam. Há dezenas, centenas, milhares. Dentro de cada uma delas, um pedaço da memória está aprisionado. E memorias dentro de gaiolas se comportam como galinhas. Galinhas nervosas, se debatendo, com ruídos de cacarejos e do bater desesperado de asas atrofiadas.

O cheiro é muito forte, e mesmo quando é bom me faz marear. As narinas confusas levam confusão ao resto do corpo. As pernas bambeiam, a cabeça lateja e o suor começa a escorrer como água. No meio de tudo isso, algo me diz que tenho pouco tempo. Um tic-tac ressoa em algum lugar. Tenho que correr, mas não sei para que. Fecho os olhos.

Por detrás das minhas pálpebras, vejo um homem de cartola - que não sou eu - entrando na sala. Ele derruba todas as gaiolas e liberta as galinhas/memórias. Com a algazarra, as penas flutuam e fazem coçar, os cheiros se multiplicam, o suor forma uma poça aos meus pés. O homem sai da sala e tranca a porta por fora. Não me movo.

De algum lugar, surge uma velha. Vestida de forma simples, ela, em desespero, tenta colocar as galinhas de volta nas jaulas. As aves se debatem, bicam, voam e caem. A velha se ajoelha e se esforça, mas é impossível. As lagrimas correm da face da mulher que com as mãos na cabeça sussurra palavras que me passam medo, muito medo. Ela levanta e com um pé de cabra destrói a fechadura da porta.

Abro os olhos. A velha não está mais na sala. Estou sozinho, e no chão, as memórias. Algumas estão mortas, outras estragadas ou esmagadas, e algumas, como antigas fitas VHS, começam a rebobinar, mas é um loop. Rebobinam infinitamente para momento nenhum. Olho para aquilo tudo e a angustia de quem não sabe o que fazer toma conta mim. Mais uma chance perdida. Fecho os olhos. Quatro e dezesseis da manhã.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Carta de mim pra mim mesmo

Caro Luís,

Os horizontes novos estão atrás dos prédios e dos outdoors. Atrás da favela e do carro de som do candidato a vereador. Tem que correr, derrubar parede, pular de janela, tropeçar em cerca de arame farpado, levar beliscão, fazer careta, assobiar mozart, cortar cebola assobiando mozart, fazer gol de canela, me procurar na esquina, ir tomar banho, virar cambalhota, dia-sim-dia-não. E tem mais! Eles só se tornam novos depois que o cara chega e pisa e canta uma música de improviso. Até lá eles são mesmo é velhos. Quer dizer, em constante mudança. Quer dizer,... entendeu, né?

Mas aí, minha dúvida: e se, chegando, não for lá? Paciência. Tira foto, manda um postal, scrap no orkut, "aquele abraço na galera!", "pega aí meu email!", "vai me visitar quando?", "foi um grande prazer, mas meu horizonte é mais pra leste". Meus pés sujos são troféus e eu sei que meus netos vão gostar das histórias que eu tenho pra contar. Além do mais, se aprende melhor onde se está e isso é priceless.

Acho também outra coisa, se me permite. Acho também que tem hora que o tal horizonte, a vista que você sempre quis emoldurada pela sua janela, está logo atrás daquela colina. Aquela ali. Não, não! Aquela outra! Isso! Essa! E tá que o sujeito, que acabou de chegar, sai correndo pro outro lado! Sabe como é? Pois é. Então antes de sair correndo outra vez, vou dar uma volta na vizinhança. A gente acaba perdendo um tanto de paisagem nesse correr-sem-calma.

PARÁGRAFO ÚNICO:
Horizontes velhos: lavou, tá novo.

Essa é a minha opinião hoje. Amanhã é outra.
Aquele abraço direto do suvaco do Redentor ("Jack! I'm flying!" no cume do Corcovado).

Luís - Dando uma volta na vizinhança

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Rosa morena

Tao pequena e escondida,
tao avessa ao sol e ao vento,
rodeada de humores frios,
saída sempre pelo avesso

Tao linda, perfeita e misteriosa,
tao igual e tao diferente,
rosa de suaves dentes
que mudam de cor
à inclinação do sol

Quando o grito se faz forte
e a chuva acomoda a terra,
ela se aperta mas deixa
que o mundo a conheça

A maré que leva a vida,
deixa na areia uma idéia,
o que se gera dentro dela,
perfeita rotação completa.

E para os não iniciados,
para os tristes do acaso,
fica a lenda da fonte mágica,
onde o prazer gera dor,
onde a dor gera a vida,
e onde a vida gera outra flor.

What?

Who am I?
I can be anyone
Who am I?
A lyric singer
Who am I?
A lost poet
Who am I?
A life beginning
Who am I?
whatever you said
Who am I?
A stupid style
Who am I?
An unfair dream
Who am I?
a fool smile
Who am I?
a simple file
Who am I?
tons of coffee
Who am I?
pen without ink
Who am I?
virtual papers
Who am I?
always late
Who am I?
some coins
Who am I?
doesn't matter.

Who am I?
If I can be anyone, I am no one.
I am not.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Outra vez

Não sei o que dizer.
Não diga.
Não sei o que fazer.
Não faça.
Não tenho o que pensar.
Não pense.
Não quero o que sentir.
Não quero.

Construção de Ecos

Vou rodar
ramos de rosa,
carros de roça
rugas de restos,
ranço das covas,
rímel de puta.

Vou restringir
o estrito atrito,
o tremelique estranho,
o truque tacanho,
o trampo perverso,
o trato do amor.

Vou chorar
cachos de chuvas,
fechos de luz,
em coxas insossas,
com manchas roxas,
lágrimas de chacal.

Vou falhar
na cama molhada,
na colheita das folhas,
na rolha de fundo,
na tertúlia do mundo,
na malha de judas.

Chifres de touro,
roupas de mouro,
tambores de couro,
anel de cristão.

À antiga espera
que a terra nos coma,
voltar a ser sombra
no fim da razão.